Guardiões do Limiar

O que é um guardião do limiar, e qual função tem?

Um obstáculo como limiar é um obstáculo passivo da psíque. Mas um guardião do limiar é um obstáculo ativo da psíque – ele é uma força que pode reagir às suas ações (em contraste, um limiar apenas dificulta o caminho passivamente).

Assim, guardões do limiar são medos, tabus (morais ou religiosos), regras e normas; que se tornam ativos e, nesse estado ativo, querem impedir os seu esforços. Simbólicamente, o guardião do limiar pode representar os aspetos mais diferentes, de tabus morais até áreas espirituais.

 


 

O Guardião do Limiar

(Manfred Kyber, traduzido do alemão)


Cada degrau para a luz

precisa de nova comprovação.

Em frente, com espada ardente,

está o guardião do limiar.


Antes de cada novo degrau

esteja atento e reze!

Para que a sua alma possa entrar,

purificada, no templo novo,

ela mesma deve ser um templo.


Até a onda de nossa vontade

vai regressar na luz sagrada

para a fonte da sua origem –

até que isso seja realizado

nos vigie, com a sua espada ardente,

nos vigie, guardião do limiar …


Um exemplo para "guardiões do limiar" e como eles surgem:

Você tem medo de entrar em uma nova área de experiência. Porque você se ocupa com esse tema, finalmente o tema vai aparecer num sonho. No sonho, você vê um obstáculo que impede você de entrar numa outra área – isso será o limiar; por exemplo: uma porta fechada, um muro, um rio, uma montanha etc. Caso você não queira ser impedido e tente seguir em frente, pode ocorrer que a sua psíque crie um "guardião do limiar" em frente do limiar – isso pode ser um gigante, um monstro, um demônio, um cachorro preto, um cavaleiro, um crânio etc. Às vezes, pode acontecer que você enfrente um guardião imediatamente.

"Eu cheguei a uma bacia ao lado duma face de rocha, cheia de água totalmente limpa e clara. No ponto mais profundo da bacia, havia um túnel escuro que dava para dentro da rocha. Com felicidade, eu pulei na água maravilhosa. Ela lavou todas as minhas impurezas. Depois, veio o guardião da bacia – uma criança, que proibiu que qualquer pessoa impura pudesse entrar na bacia. Do túnel, eu pude ouvir um rugido, e ondas grandes atingiram a bacia, abrandando em muitas ondinhas. Eu me deixei levar por essas ondinhas, despreocupado.

Quando as ondas terminaram, eu entrei no túnel. Eu senti claramente que isso era a entrada para o mundo além, o submundo. Eu entrei numa caverna enorme de rocha nua. Nela, estavam seres humanos com armaduras pretas, as quais eram ornamentadas com relevos de ossos. Mas nenhum desses seres eram hostis. De repente, veio Kali, a deusa do submundo, num veículo grande. Ela era linda, com turquesas e jóias azuis, e ela tinha olhos grandes, escuros e curvados. Quando eu estava me aproximando dela, eu acidentalmente toquei um pavão artisticamente feito, coberto totalmente de turquesas. Por causa do meu toque, ele ganhou vida. Eu estiquei o meu braço em frente dele, e sem timidez, o pássaro sagrado do Vishnu imediadamente se sentou no meu braço. Assim, eu entrei no veículo da Kali, e com um gesto quase imperceptível da mão, Kali fez o veículo se mover, até ele correu cada vez mas rápido. Eu andei para a traseira do veículo. Lá, estavam muitas pessoas, que se seguraram na grelha de bambu para que elas não caíssem do veículo. Eu também fiz a mesma coisa. Eu sabia: se uma pessoa caísse, o lugar aonde ela chegava se tornaria um portal de reincarnação. Quanto mais longe você se pudesse segurar, melhores se tornavam as possibilidades da nova incarnação. Mas eu quis ficar até ao fim … durante essa viagem, eu sonhei muitos sonhos – cada sonho uma vida. Um sonho foi especialmente importante, eu não devo esquecé-lo." (V.)


Algumas formas típicas do guardião do limiar

 

Cavaleiro

A armadura do cavaleiro é um indício que você não pode atacá-lo e que ele tem a intenção de defender algo.

"Eu andei num caminho pedregoso, que estava curvando entre as faces da rocha. A paisagem tinha um ambiente misterioso. Quando o caminho fez uma curva, eu me encontrei em frente duma ponte, com uma escada de pedra atrás dela. A escada levou a um portal forte e fechado. O portal levou diretamente para dentro da face da rocha. Na ponte estava um cavaleiro, bloqueando o caminho. Por isso, eu puxei a minha espada e lutei contra ele. Lutando assim, eu cheguei à escada, defendendo a posição mais alta para mim. Enfim, o agressor desistiu. Eu abri o portal e entrei." (V.)


Gigantes

Gigantes são guardiões do limiar "exagerados". Eles não nos intimidam com uma aparência horrível ou atributos agressivos como armas ou garras, mas com o tamanho e a força deles. Contudo, como nos contos de fadas, também nos sonhos tem a regra "o mundo pertence aos corajosos". E a nossa coragem nos sonhos pode ser especial: se você estiver consciente de estar num sonho (consciência clara no sonho), assim será muito mais fácil de ser "corajoso" – porque enfim, você saberá que nada mal pode acontecer, é só um sonho. Além disso, o nível da consciência nos sonhos tem grande importância: se você estiver de consciência clara no sonho, você poderá superar todos os obstáculos.

O gigante de nevoeiro

"Andei por uma paisagem pedregosa, num caminho que me guiou a silhueta dum templo muito grande. Era a entrada para o submundo. De longe, se pode sentir que esse templo era um lugar de conhecimentos, mas também um lugar de horror. Eu já estava me aproximando do templo, quando um gigante, do tamanho de cerca de dez metros, apareceu em frente do templo, parado bloqueando o caminho. Apesar disso, eu segui em frente, na direção do gigante. Para minha surpresa, o gigante se tornou cada vez mais transparente, como se ele somente fosse uma ilusão. Ele se transformou em nevoeiro, e eu pude andar através do gigante. O caminho para o templo estava aberto! Um corredor longo levou para dentro do templo. Nas paredes do corredor havia espelhos – nelas, eu pude ver os erros de minha vida, grandes e acusatórios. Mas a galeria dos espelhos não terminou com o corredor: depois do corredor, andei por salões que também tinham espelhos nas paredes. Era como uma série de acusações silenciosas, claramente perceptíveis, e essas acusações – e os acontecimentos passados relacionados – só ganharam toda a sua força quando eu as olhei diretamente. Só depois dessa passagem de recordações, o caminho para o submundo estava finalmente aberto." (V.)


Barqueiro

Na mitologia grega, é o Caronte que guia os mortos pelo rio Aqueronte. Quando os barqueiros aparecem nesse sentido mitológico, se trata de figuras simbólicas, com origem na mitologia.

Friedrich Hebbel: Diário, 24 de Março, 1860

"Senhora von Engelhofen estava connosco. Ela contou que o marido dela tinha tido o mesmo sonho oito noites antes da sua doença, e também na nona noite em uma outra variante: nesse sonho, ele estava numa paisagem totalmente desconhecida e estranha, com um rio grande e claro no centro, cercado de névoa. Na beira do rio, estava um barqueiro, mas quando o marido da senhora von Engelhofen se aproximou dele e ofereceu dinheiro para a travessia, o barqueiro o rejeitou. Mas na nona noite o barqueiro se tornou mais amigável, deixou o marido entrar no barco e eles atravessaram o rio numa grande velocidade. Na outra margem, tudo se tornou mais claro e um palácio magnífico se ergueu em frente dele. Do palácio, o pai falecido do marido apareceu e o recebeu calorosamente … O marido da senhora von Engelhofen interpretou esse sonho como uma viagem, mas no mesmo dia, ele adoeceu e, no decurso duma semana, ele morreu."


Madrinha Morte/ Padrinho Morte

Em uma correspondência:

"Era assim: eu chamei a morte, e ela veio realmente. Eu tenho que dizer ‘ele’, porque a morte era masculina, e assim eu tenho que dizer ‘o padrinho morte’. Eu pedi que ele me ensinasse, e ele disse sim. Ele pôs a sua mão sobre a minha, e de novo, esse sentimento de força correu dentro de mim, essa força que o padrinho emanava. É muito difícil para mim explicar isso. Esse sentimento de força era muito poderoso e positivo, mas eu também tinha medo, porque eu estava totalmente a mercê dessa força e não podia controlá-la. Eu disse que ele pôs a mão sobre a minha, mas isso não é totalmente correto. Porque eu não vi nem a mão dele, nem o rosto, nem alguma coisa, nem sequer uma aparência ossuda. Ele apenas tinha um manto cor de marrom, essa energia forte, e a voz – essa voz, que eu já tinha te descrevido na última vez. Eu o perguntei se eu tinha que morrer. Ele sorriu e disse que não. Ele disse que era verdade que ela era um guia, um mestre. Ele disse: ‘Eu protejo a vida para que o resto possa morrer.’ Eu não entendi. Também o disse que eu não tinha entendido."

Corvo/ Gralha

Na mitologia, corvos e gralhas são, muitas vezes, mensageiros do mundo além.

"No pilar do portão do jardim, estava um corvo, com seu corpo virado de lado para mim. Sentado no vestibulário, eu olhei em seu olho e me perguntei se ele também podia me ver ou sentir. Eu tinha a impressão que ele sabia da minha presença, mas ele não revelou isso e ficou sentado em silêncio." (V.)

 

Serpente

Como guardião do limiar, a serpente muitas vezes tem uma aparência sublime. Nesse caso, ela aparece como ser individual (e não em grupos como no seu aspeto simbólico do instinto), com ênfase da sua natureza única. Um guardião do limiar é também um tipo de soberano duma área ou esfera, e nesse caso, ele aparece com atributos que expressam essa regência (por exemplo: a gadanha da morte é um atributo senhorial). No caso da serpente, esses atributos são: postura ereta, coloração especial, às vezes uma coroa, joias e tesouros.

"Cerca de 200 Metros na minha frente, eu vi um templo oblongo, cujo portal enorme era a entrada para o mundo do além – eu sabia disso. Em frente desse portal estava uma serpente excepcionalmente grande, que bloqueou o caminho para que nenhum ser humano pudesse entrar. A uma distância, eu me posicionei em frente dela, na postura mágica da runa ‘man’, e lentamente comecei a balançar para cá e para lá, como os faquires fizeram com a sua flauta. A raiva da serpente diminuiu, ela se tornou mais calma e também comecei a balançar. Ela até se tornou bondosa e deixou me entrar." (V.)

 

"Eu estava numa área em crepúsculo cinzento, de tal maneira que os contornos da paisagem já se dissolveram depois de uns cem metros. Mas na minha frente estava uma pedra tumular alta, como um obelisco, cercado de círculos suspensos no ar. Enquanto eu olhava atentamente para essa lápide, de repente uma serpente branca com cerca de três metros de altura se ergueu em frente dela. Essa serpente falou comigo e me ensinou as quatro áreas subterrâneas, as quais eram compostas de cavernas, lagos e águas, e povoadas por quatro grupos de animais: os vermes, os caracois, e dois outros grupos que eu esqueci. Eu fiquei profundamente impressionado." (V.)


Gato preto

O gato tem a reputação de ser possuidor de forças mágicas (por exemplo: as nove vidas do gato, o gato como companheiro das bruxas etc.) e de ser temperamental. Ele prefere a noite . Especialmente como gato preto e como caçador – assim, ele é muitas vezes associado com os aspetos dinâmicos do subconsciente.

"Era noite. Junto com os yogis A. e S., eu andava por uma paisagem estranha de prados. Nós chegamos a uma porta de ferro forte, que levava a um jardim. Mas nós mal nos aproximamos da porta, quando um gato preto gigante apareceu em nossa frente. Com as patas dianteiras, ele se pôs no arco da porta, rosnando com olhos cintilantes abertos. Ele era um monstro caçador que preferia carne humana. Se nós quisessemos entrar no jardim e na casa, tinhamos que resolver essa situação. Mesmo que eu estivesse parcialmente consciente de que isso era um sonho, eu não me senti seguro. Mas enfim, com truques mágicos, nós conseguimos entrar na casa, enquanto o gato circulava em volta da casa, rosnando e tentando nos alcançar com as patas, as metendo pelas janelas e pelas portas. Eu não sabia o que tinha acontecido, mas eu sabia que nós tinhamos que consertar alguma coisa nesse lugar. Nós acendemos a luz, e parecia que isso era a coisa mais importante. Enfim, veio o nascer do dia, e o monstro se transformou num gato de cor dourado-caramelo. Ele até nos deixou o acariciar, ronronando contentemente." (V.)


 

Cachorro

Durante milênios, o cachorro tinha a função de cachorro de guarda – assim nada parece mais natural que ele apareça nos sonhos com a mesma função. A posição dele é menor do que a do ser humano, e é a mesma coisa nos sonhos; assim são áreas mais baixas que ele tem que guardar. Na mitologia grega, é o monstruoso cachorro Cérbero com três cabeças e cauda de dragão. Ele guarda a entrada para o Hades.

O caminho para o mundo inferior (sonho lúcido)

"A caminho por uma cidade, um prédio grande, que parecia um edifício oficial, chamou a minha atenção. Em frente do prédio, estava uma praça que ainda acentuava a importância do prédio. Eu andei para lá, tive que pagar 10 xelims austríacos e depois me permitiram entrar. Mas, como eu havia percebido logo, ninguém poderia sair do prédio, porque ao lado do caixa estava um cachorro grande e desgrenhado. Ele rosnou para todas as pessoas que ousaram dar um só passo de volta. Quando eu andei pelo prédio, o corredor sombrio, que levava gradualmente para baixo, se ramificou. Surgiram muitos caminhos, onde pessoas estavam deitados no chão, fracas e exaustas. Enfim, eu cheguei a uma balaustrada na margem duma caverna grande. Quando eu olhei para baixo, eu vi o chão dessa caverna, cerca de 10 metros abaixo, e de novo, muitos corredores se ramificavam nesse lugar. Essa caverna era ainda mais horrível do que tudo que eu tinha visto antes, e as pessoas lá tinham rostos animalescos e cobertos de pelo. Ao meu lado, estava um guardião que quis que eu fosse para a caverna abaixo. Mas eu pude sentir uma força grande dentro de mim, e o mostrei o meu anel. De repente, o anel começou a brilhar, e todas as portas se abriram – as pessoas foram libertadas e puderam sair desse lugar terrível. Mas infelizmente, a maioria delas regressou para o prédio logo depois." (V.)


Chave

O guardião do limiar abriu o caminho e permite que você passe pelo portal a qualquer hora.

O portal no corredor

"Me lembro dum sonho em que eu estava no corredor de meu apartamento. Eu senti um portal para uma outra área, escondido na parede, assim eu toquei a parede com minhas mãos e pedi permissão para entrar. De repente, um portal de madeira apareceu na parede e eu pude abri-lo facilmente. Ele dava para uma área sagrada e antiga … enquanto eu explorava essa área, eu pude sentir a chave do portal no meu bolso da calça. Eu não sabia como a chave tinha ido parar lá, mas eu sabia que o guardião dessa área sagrada me deu permissão para entrar por meio dessa chave." (Corra)

 

 

© Alfred Ballabene (Viena) traduzido por Corra